Quando o Amor Vira Prisão
- Ailton Cunha
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Casamento, Silêncio e a Violência Que a Sociedade Não Quer Ver
O casamento, em sua essência, nasce como promessa de cuidado, abrigo e parceria. É o lugar onde duas pessoas deveriam crescer juntas, dividir pesos e multiplicar afetos. No entanto, para muitas mulheres, essa promessa se transforma lentamente em um cárcere invisível — um espaço onde o amor é confundido com controle, e o silêncio passa a ser chamado de paciência.
A violência raramente começa com um soco. Ela costuma chegar disfarçada de zelo excessivo, de ciúmes “porque ama demais”, de palavras que diminuem, de decisões tomadas “para o seu bem”. Aos poucos, a mulher vai sendo conduzida a duvidar de si mesma. Sua voz perde força. Sua percepção da realidade é manipulada. Ela passa a acreditar que o problema é ela — nunca o outro.
Relacionamentos abusivos são construções psicológicas complexas. O agressor não se apresenta como vilão; ele se mostra como salvador, protetor, alguém que “ninguém jamais amará como ele”. Nesse jogo cruel, a mulher é levada a crer que sair é fracassar, que insistir é virtude, que suportar é prova de amor. O abuso se normaliza. A dor se torna rotina. O medo vira companhia diária.
A separação, nesse contexto, não é apenas um rompimento afetivo — é um ato de sobrevivência. Ainda assim, ela é frequentemente julgada com dureza. A sociedade pergunta por que ela não saiu antes, mas raramente pergunta por que ele violentou. Aponta o dedo para a mulher que decide partir, mas fecha os olhos para a estrutura que a manteve presa: dependência emocional, financeira, filhos, ameaças, isolamento, vergonha e, sobretudo, a ausência de uma rede de apoio real.
A religião, que deveria ser espaço de acolhimento e proteção da vida, muitas vezes se transforma em mais uma barreira. Em nome da “família”, do “casamento até que a morte os separe”, mulheres são aconselhadas a orar mais, a perdoar mais, a suportar mais. Pouco se fala sobre o valor da vida, da dignidade e da integridade emocional. Pouco se lembra que nenhum Deus que seja amor pode exigir que alguém permaneça onde há violência, humilhação e risco de morte.
O feminicídio é o ponto final de uma história longa de negligência coletiva. Ele não acontece de repente. É precedido por gritos silenciosos, pedidos de ajuda ignorados, denúncias desacreditadas, piadas minimizando o perigo, conselhos que culpabilizam a vítima. Quando a morte chega, todos se dizem chocados. Mas quantos ouviram antes? Quantos estenderam a mão? Quantos acreditaram?
Refletir sobre casamento, separação e violência contra a mulher exige maturidade moral e empatia profunda. Exige reconhecer que o amor não machuca, não ameaça, não controla, não mata. Exige entender que permanecer não é sempre virtude — às vezes, é resultado de medo e manipulação. Exige, sobretudo, romper com discursos que romantizam o sofrimento feminino e responsabilizam a vítima pela violência que sofreu.
Enquanto a sociedade continuar ensinando mulheres a aguentar e homens a dominar, o ciclo se repetirá. Enquanto o silêncio for mais confortável do que o confronto, vidas continuarão sendo perdidas. O verdadeiro compromisso — social, religioso e humano — deveria ser com a proteção da vida, com a escuta ativa, com o apoio real e com a coragem de dizer, em alto e bom som: nenhuma forma de amor justifica a violência.
Talvez a pergunta mais urgente não seja “por que ela não ficou?”, mas “por que nós não a protegemos?”.
Por Ailton Cunha









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