Era noite.
- Ailton Cunha
- há 7 minutos
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Não apenas naquela Jerusalém antiga descrita no Evangelho de João.
Era noite como tantas que conhecemos hoje.
Vivemos em uma geração iluminada por telas, mas mergulhada em escuridões invisíveis. Temos acesso à informação em segundos, mas lutamos para encontrar direção. Estamos conectados com o mundo inteiro — e, ao mesmo tempo, profundamente sós.
Quando João escreveu que Judas saiu, “e era noite”, ele estava descrevendo mais do que o horário. Ele estava revelando um momento em que o coração humano escolheu a escuridão mesmo estando diante da Luz.
E não é isso que ainda acontece?
Hoje também vemos pessoas saindo da sala da comunhão para os corredores da pressa. Saindo da verdade para conveniências. Saindo da fé para acordos silenciosos com aquilo que corrói por dentro.
Era noite — e continua sendo noite sempre que:
O sucesso vale mais que a integridade.
A aparência substitui o caráter.
A ambição fala mais alto que a consciência.
O medo governa decisões.
Nos capítulos 13 a 19, tudo parece desmoronar. Traição, injustiça, manipulação política, condenação de um inocente. Diante de Pôncio Pilatos, vemos um líder que sabe o que é certo, mas escolhe o que é conveniente.
Soa familiar?
Vivemos dias em que muitos sabem o que é justo, mas escolhem o que é popular. Sabem o que é verdadeiro, mas preferem o que dá menos conflito. A noite moderna muitas vezes se chama omissão.
E enquanto isso, Jesus permanece firme.
Isso é o que mais impacta na narrativa: a escuridão cresce, mas Ele não perde o controle. Ele não reage com desespero. Ele não negocia Sua identidade. Ele não se torna semelhante às trevas para sobreviver a elas.
Em um mundo que muda valores conforme a tendência do momento, essa postura confronta nossa geração.
Hoje enfrentamos noites emocionais — ansiedade, depressão, crises familiares.
Noites profissionais — pressão, insegurança, instabilidade.
Noites espirituais — dúvidas, silêncio de Deus, cansaço na fé.
A grande pergunta é: o que fazemos quando é noite?
Judas saiu para a escuridão.
Pedro negou sob a pressão da noite.
Os discípulos se esconderam.
Mas Jesus permaneceu.
Talvez a mensagem mais atual desses capítulos seja essa: a noite revela escolhas.
Ela revela em quem confiamos.
Revela onde está nossa esperança.
Revela se nossa fé depende de circunstâncias ou convicções.
Vivemos dias acelerados, barulhentos, polarizados. A sensação é de que algo está sempre prestes a ruir. Parece noite culturalmente. Noite moralmente. Noite espiritualmente.
Mas a história não termina no capítulo 19.
A cruz parecia derrota definitiva. No entanto, era o caminho para o maior recomeço da humanidade.
Isso nos ensina algo essencial: a noite pode ser cenário, mas não é sentença final.
Talvez você esteja atravessando sua própria noite agora — e tudo parece silencioso demais. Mas o mesmo Deus que conduziu a história naquele momento continua ativo hoje. Ele ainda trabalha quando não vemos. Ainda sustenta quando não entendemos. Ainda prepara manhãs que não conseguimos imaginar.
Porque a noite pode até envolver o céu —
mas nunca consegue apagar a Luz.
E quando parece que tudo está escuro demais, é justamente ali que a esperança começa a nascer.
Ailton Cunha




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