Isabella Nardoni, o silêncio no sexto andar
- Tilara Neutzling

- 8 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Edição 2
Por Tilara Neutzling, Psicóloga Pós-graduada em Investigação Forense e Perícia Criminal
Isabella Oliveira Nardoni nasceu em 18 de abril de 2002, fruto da união entre Alexandre Nardoni e Ana Carolina Oliveira. O relacionamento terminou de forma conturbada quando a menina tinha pouco mais de um ano, passando a viver com a mãe e a visitar o pai nos fins de semana estipulados pela Justiça. Embora o arranjo parecesse funcional, havia tensões latentes e disputas de bastidores que se intensificaram com a entrada de Anna Carolina Jatobá na vida de Alexandre. Sob a superfície de normalidade, cresciam ressentimentos, competições e uma atmosfera hostil que, com o tempo, moldaria o cenário para o desfecho mais trágico possível.
Na noite de 29 de março de 2008, o país foi surpreendido por uma notícia devastadora: Isabella, então com cinco anos, foi encontrada sem vida após cair do sexto andar do edifício London, na zona norte de São Paulo. A princípio tratada como um acidente, a ocorrência logo passou a ser investigada com atenção minuciosa. Sinais de agressão, alterações na cena e contradições nos depoimentos abriram caminho para a suspeita de que a queda não fora fruto do acaso, mas consequência direta de uma ação violenta dentro do próprio apartamento.
Alexandre Nardoni havia sido criado em um ambiente de hierarquia rígida e autoridade inflexível, sob a forte influência do pai, Antônio Nardoni. Esse modelo, pautado no controle e na manutenção das aparências, moldou nele uma forma de relacionamento em que a obediência e a preservação da imagem do grupo eram mais valorizadas do que a expressão genuína de conflitos. Nesse contexto, as visitas de Isabella ao pai não eram apenas encontros familiares, mas também momentos em que essa lógica de comando e preservação da fachada se impunha sobre qualquer diálogo aberto sobre desavenças ou dificuldades.
Com a chegada de Anna Carolina Jatobá, tensões já existentes se intensificaram. Descrita por testemunhas como alguém de temperamento impulsivo, baixa tolerância a frustrações e comportamento competitivo, ela passou a disputar espaço e afeto na relação de Alexandre com a filha. Registros indicam restrições de contato, atitudes hostis e constantes atritos velados. Ao invés de atenuar conflitos, a presença de Jatobá reforçou uma aliança conjugal que se sobrepunha às necessidades emocionais de Isabella, isolando-a progressivamente dentro daquele núcleo.
Naquele fim de semana, Isabella estava sob os cuidados do pai e da madrasta. Depoimentos de vizinhos indicaram discussões e ruídos incomuns pouco antes da queda. A perícia apontou que a janela pela qual a menina foi lançada apresentava sinais de manipulação e que a sequência de acontecimentos descrita pelo casal não era compatível com as evidências. As investigações sugeriram que não se tratou de um rompante isolado, mas de um episódio que envolveu agressão física prévia, tentativa de encobrir vestígios e a formulação imediata de uma versão para confundir as autoridades. Esse conjunto de ações revela não apenas violência, mas também cálculo e cooperação mútua.
Após o crime, um gesto específico chamou atenção: a avó paterna, Maria Lúcia Nardoni, retirou os irmãos de Isabella do convívio com o casal. Embora não tenha declarado abertamente suas razões, a decisão sugere percepção de perigo iminente. Em contextos de lealdade interna tão rígida, afastar crianças de um núcleo geralmente é um indicativo de que algo grave foi compreendido, ainda que de forma não verbalizada.
A investigação também expôs um padrão de funcionamento herdado ao longo das gerações: proteção da imagem acima da verdade, minimização de conflitos graves e manutenção de pactos tácitos mesmo diante de evidências incontornáveis. A permanência de Alexandre e Jatobá como casal após o crime reforçou a prioridade dada à coesão interna sobre qualquer responsabilização moral.
Relembrar a história de Isabella não é apenas revisitar um crime de extrema violência contra uma criança indefesa. É compreender como dinâmicas de controle, competição e negação sistemática de problemas podem criar um ambiente onde a opugnação encontra espaço para prosperar. Isabella não foi assassinada por obra do destino; foi engolida por um sistema relacional corroído, onde afeto se transformou em posse, zelo em disputa e confiança em traição deliberada. Sua morte expôs de forma crua a capacidade humana de destruir aquilo que deveria proteger a todo custo









Comentários