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Edição 19- Joseph James DeAngelo: o homem que transformou o tempo em esconderijo

  • Foto do escritor: Tilara Neutzling
    Tilara Neutzling
  • há 23 minutos
  • 3 min de leitura

COLUNA: SEXTAS DO CRIME


Por Tilara Neutzling, Psicóloga Pós-graduada em Investigação Forense e Perícia Criminal


Durante mais de quatro décadas, o nome Joseph James DeAngelo não significava absolutamente nada para a polícia americana. Ele não aparecia em listas de suspeitos, não frequentava ambientes marginais, não deixava rastros evidentes. Enquanto a Califórnia tentava entender uma série de estupros violentos e assassinatos que atravessavam condados inteiros entre os anos 1970 e 1980, DeAngelo construía uma vida aparentemente banal: marido, pai, policial, depois mecânico. O que ninguém percebia é que essa normalidade não era fachada. Era ferramenta.


Os crimes atribuídos a ele começaram no início da década de 1970, primeiro como o chamado Visalia Ransacker, um invasor serial que entrava em casas para furtar objetos íntimos e reorganizar ambientes. Esse comportamento inicial não era aleatório. Ele já revelava algo central na psique do agressor: a necessidade de controle silencioso. Antes de ferir pessoas, DeAngelo testava limites, observava rotinas, mapeava reações. A casa não era apenas um local. Era um território a ser estudado.


A escalada acontece quando ele passa a cometer estupros em série na região de Sacramento, tornando-se conhecido como East Area Rapist. O padrão se repete com precisão quase obsessiva. Ataques noturnos, vítimas escolhidas após vigilância prolongada, entrada sem arrombamento visível, uso de cadarços ou objetos da própria casa para imobilizar. DeAngelo falava pouco durante os ataques, mas controlava tudo. Mandava as vítimas permanecerem imóveis, ameaçava matar crianças ou parceiros, empilhava pratos sobre as costas das mulheres para ouvir qualquer movimento. Não buscava apenas violência sexual. Buscava submissão absoluta.


Esse detalhe é essencial para compreender sua motivação criminal. Diferente de agressores impulsivos, DeAngelo operava a partir de planejamento e ritual. O crime começava muito antes da invasão. Ele observava horários, hábitos, relações familiares. Em alguns casos, fazia ligações telefônicas dias ou semanas depois, apenas para reafirmar presença. A violência continuava no tempo, prolongada pela memória e pelo medo.


Na década de 1980, os crimes se tornam ainda mais graves. O mesmo agressor passa a matar. Casais são atacados dentro de casa, homens executados, mulheres estupradas e assassinadas. A transição do estupro para o homicídio não representa uma ruptura, mas uma intensificação. O controle já não bastava. A eliminação da testemunha passa a fazer parte da lógica operacional. Ainda assim, não há caos. As cenas são relativamente limpas, os corpos posicionados, a fuga eficiente. DeAngelo desaparece sem deixar pistas biológicas identificáveis para a tecnologia da época.


Um dos aspectos mais perturbadores do caso é que, enquanto cometia esses crimes, DeAngelo trabalhava como policial. Ele conhecia protocolos, tempos de resposta, limites da investigação. Sabia exatamente o que evitar. Quando foi demitido por furtar um objeto de uma loja, o episódio não chama atenção da polícia criminal. A compartimentalização da vida dele era quase perfeita. Família e trabalho de um lado. Violência extrema do outro. Não havia colapso aparente entre essas esferas.


O perfil das vítimas não aponta para um tipo específico em termos de aparência ou classe social, mas revela algo mais importante: disponibilidade e previsibilidade. Eram pessoas inseridas em rotinas estáveis, residências acessíveis, bairros que transmitiam sensação de segurança. DeAngelo não caçava vulnerabilidade social. Ele explorava vulnerabilidade estrutural. Casas sem alarmes, hábitos repetidos, confiança no ambiente doméstico. O lar, símbolo máximo de proteção, era transformado em cenário de terror.


A captura só acontece em 2018, graças ao uso de genealogia genética forense. O DNA coletado décadas antes é cruzado com bancos de dados públicos, levando a parentes distantes e, finalmente, a DeAngelo. A prisão quebra um dos maiores silêncios da história criminal americana. Quando confrontado, ele não reage com choque ou negação intensa. A postura é apática, quase vazia. Não há tentativa real de explicar ou justificar. Apenas a constatação tardia de que o tempo, finalmente, o alcançou.


Do ponto de vista psicológico criminal, DeAngelo representa o predador organizado clássico, mas com uma particularidade inquietante: sua violência não parecia movida por descontrole emocional, mas por adaptação. Ele se ajustava às falhas do sistema, aprendia com erros, modificava métodos. Não buscava notoriedade, não deixava manifestos, não queria ser visto. Seu prazer estava em existir à margem da percepção, exercendo poder sem ser nomeado.


Quando DeAngelo foi finalmente identificado, não houve catarse pública nem confissão esclarecedora. O que restou foi um dossiê fragmentado, construído mais por vestígios do que por narrativa. Seus crimes não se encerram com a prisão, porque nunca se organizaram como uma história com começo, meio e fim. São episódios isolados por décadas, conectados apenas pela repetição de um método e pela persistência de um homem que soube desaparecer melhor do que soube viver. O arquivo se fecha, mas o caso não se resolve. Ele apenas para de crescer.

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