Edição 16 – Elize Matsunaga: Homicídio Conjugal
- Tilara Neutzling

- 12 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Por Tilara Neutzling, Psicóloga Pós-graduada em Investigação Forense e Perícia Criminal
Quando o caso de Elize Matsunaga explodiu na imprensa, em 2012, a reação imediata foi de perplexidade: uma mulher sem antecedentes, mãe, moradora de um condomínio de luxo, confessando o homicídio e o desmembramento do próprio marido, Marcos Kitano Matsunaga, executivo e herdeiro da Yoki. Mas por trás do impacto inicial havia uma trajetória menos cinematográfica e mais crua, marcada por deslocamentos constantes, tentativas de reinvenção e a busca por estabilidade em um mundo que sempre lhe escapou pelas mãos.
Elize cresceu no interior do Paraná, em um ambiente onde a violência e a precariedade eram presenças constantes. Sua adolescência foi atravessada por rupturas familiares que deixaram marcas profundas: um pai ausente, violência doméstica e uma mãe tentando sustentar a casa sem recursos. Ainda muito jovem, ela deixa a região e migra para São Paulo em busca de uma vida menos hostil. O percurso é duro. Trabalha em fábricas, em empregos temporários e, mais tarde, entra no mercado de acompanhantes, não por glamour, mas por necessidade. Esse movimento marca a primeira grande virada da sua história: é ali que conhece homens de outra classe social e entende como capital simbólico e financeiro estruturam relações que antes lhe eram inacessíveis.
É nesse contexto que ela conhece Marcos Matsunaga, cliente recorrente do site onde anunciava. O vínculo entre os dois nasce em um ambiente de transação, mas evolui para um relacionamento estável. Marcos era casado quando conheceu Elize e só depois se separa para assumir a nova união. A diferença social entre eles não foi apenas pano de fundo. Ela construiu a lógica da relação. Para Elize, Marcos oferecia segurança, rede de apoio, um estilo de vida inalcançável pelos caminhos que ela conhecia. Para Marcos, Elize representava encanto, vitalidade, talvez a fantasia de um mundo diferente daquele que ocupava desde sempre. O casamento nasce, portanto, dessa combinação: desejo, oportunidade e um certo desequilíbrio de poder que ambos, por algum tempo, parecem aceitar.
A estrutura dessa relação, no entanto, nunca foi inteiramente estável. O conforto material não apagava a assimetria cotidiana. Marcos detinha controle financeiro, tomava decisões e costurava os termos implícitos da dinâmica doméstica. Elize, mesmo após a chegada da filha, ainda se movia sob a sombra de ser percebida como alguém que teve sorte na vida, um estigma silencioso que a acompanhou em reuniões, encontros familiares e nos espaços sociais frequentados pelo casal. Essa sensação de inadequação não era explícita, mas constante. E cresce quando Elize descobre a primeira traição, antes mesmo de engravidar.
Durante alguns meses, o casamento se recompõe, mas a ferida não fecha. Quando, em 2012, ela encontra novos indícios de que Marcos mantinha outra relação extraconjugal, a tensão se acumula. Provas guardadas, conversas gravadas, rastreamento de gastos. O que antes parecia insegurança vira vigilância. O que era incômodo vira medo real de ser substituída. Para uma mulher cuja vida inteira foi marcada por abandono e instabilidade, perder Marcos não significaria apenas o fim do casamento, mas o colapso de tudo o que havia construído desde que deixara o Paraná.
A noite do crime surge desse acúmulo. Não há elemento místico, não há premeditação no sentido puro do termo. Há uma discussão acalorada, há um histórico de conflitos e uma sucessão de atos impulsivos que, somados, levam ao disparo. Mas o crime não termina ali. A etapa que mais chocou o país, o desmembramento, não é expressão de sadismo, e sim de desespero e desorganização. Elize tenta apagar o rastro que já sabia impossível de esconder. Usa técnicas de corte que aprendeu em anos trabalhando em frigorífico, organiza sacos, segue uma lógica operacional que, por mais brutal que pareça, é típica do padrão pós-crime de quem tenta reparar o que já não tem retorno.
O desmembramento, por mais chocante que soe ao público, não é necessariamente sinal de perversão, mas de uma psique levada ao limite entre pânico e tentativa de controle. Na criminologia, atos de esquartejamento costumam se dividir entre os motivados por ódio, por ritualística ou por finalidade prática. No caso de Elize, tudo aponta para a terceira categoria. Seu modus operandi não demonstra prazer, e sim uma tentativa desesperada de reduzir o corpo à tarefa, como forma de suportar psicologicamente a realidade do ato. O padrão fragmentado expõe uma mente fraturada, em estado de hiperfoco, tentando reorganizar o caos interno por meio da ação mecânica. É um tipo de dissociação funcional observado em crimes domésticos sem intenção inicial de matar, mas onde o colapso emocional pós-ofensa gera condutas que chocam pela crueza, não pela frieza.
O plano, porém, ruiria rápido. Câmeras, registros de compras, inconsistências nos depoimentos e a incapacidade de sustentar uma narrativa de desaparecimento desmontam qualquer possibilidade de fuga. Em poucos dias, a polícia reúne as provas e Elize confessa. O julgamento, ocorrido em 2016, transforma o caso em espetáculo nacional. A acusação enfatiza frieza, cálculo e ocultação. A defesa destaca medo, desequilíbrio e vulnerabilidade. O tribunal a condena por homicídio qualificado e destruição de cadáver.
O caso de Elize permanece vivo não porque ofereça respostas simples, mas porque desafia qualquer tentativa de enquadramento definitivo. Ele expõe como relações aparentemente estáveis podem carregar tensões que se acumulam em silêncio e como, em certas circunstâncias, a engrenagem emocional de um casal pode se romper de forma abrupta e devastadora. Cada detalhe do processo, das investigações às versões apresentadas, revela um relacionamento que funcionava como um campo minado, onde passos dados no escuro acabaram levando a um ponto sem retorno. É essa combinação entre intimidade, segredo e explosão que mantém o caso tão marcante na memória coletiva.




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